12 Meses | 12 Peças

FEVEREIRO

Ammaia jarro

Jarro de Vidro Romano
Jarro globular de bocal trilobado.
Altura 150mm, Diâmetro máximo 120mm. Incolor esverdeado
Jarro completo de depósito globular, base côncava ápode, gargalo cilíndrico curto, bocal trilobado repuxado e rebatido, asa de fita com apoio para polegar.
Forma Isings 88b. Produção lusitana
Cronologia: Incerta (em uso nos sécs. II – III d.C.)
Número de inventário: MNA 13667

O jarro de vidro que ora apresentamos como peça em destaque do mês de Fevereiro, da rubrica intitulada “Doze meses – Doze peças”, é interveniente no núcleo dos vidros da colecção Maçãs, pertencente ao acervo do Museu Nacional de Arqueologia, como o próprio acrónimo do seu número de inventário assim o denuncia.
A colecção Maçãs é, actualmente, constituída pela aglomeração de duas colecções distintas, não pelo seu conteúdo, mas pela categoria. Uma das colecções, já existente desde as primeiras décadas do século XX nas reservas do Museu Nacional de Arqueologia, foi “alimentada” pelo Sr. António Maçãs, proprietário local e amigo de José Leite de Vasconcelos, fundador deste Museu, como é comprovado na troca de correspondência entre ambos. Para além das peças que enviava ao seu amigo Leite de Vasconcelos, guardava algumas para si, constituindo, assim, também ele, uma colecção particular. Esta última foi engrossar a do Museu em Lisboa, em 2008, por disposição testamentária da Dr.ª Delmira Maçãs, filha do Sr. António Maçãs. É pois, e actualmente, a união dessas duas colecções de peças que tem na Ammaia a sua origem, que se traduz a colecção Maçãs, integralmente propriedade do Museu Nacional de Arqueologia. Esta colecção, que engloba diferentes tipologias de materiais, no que concerne aos vidros, conta com 31 recipientes inteiros e 5 completos ou quase, perfazendo um total de 36 peças, um número considerável se compararmos com outras cidades romanas em território actualmente português. Pode ser considerada uma das melhores colecções de vidros, não porque a qualidade do vidro seja excepcional, mas pelo seu estado de conservação, a que não devem ser alheias as características dos solos que envolvem a Ammaia, de origem granítica e naturalmente ácidos, sendo por isso favorável à preservação do vidro.

Aqui, compete-nos falar exclusivamente sobre esta peça, que não sabemos detalhadamente as condições do seu achado, mas presumivelmente esta poderá ter sido descoberta, por exemplo, em pilhagens de sepulturas, circunstância que pode explicar também o excelente estado de conservação em que se apresenta.
Trata-se de um jarro globular de bocal trilobado e pertence ao tipo Isings 88b, caracterizando-se por ter um bocal repuxado na frente e rebatido lateralmente, que, como afirma Mário Cruz (Cruz, 2015) é contrária às formas tardias em que o bocal é apenas rebatido lateralmente.
No que respeita à função social, ou funções sociais, da peça, ela pode ter tido a função utilitária como jarro, servindo às mesas romanas, usado para servir bebidas. Provavelmente, não a uma mesa qualquer, uma vez que se trata de uma peça que podemos apelidar de “luxuosa”. Pode ter tido, por outro lado, apenas uma função votiva, sendo a sua função exclusiva a de acompanhar o defunto, fazendo parte do espólio funerário. Ou pode ainda ter tido ambas as funções. Esta última hipótese parece ser de descartar uma vez que, pela fragilidade da peça, se tornaria difícil manter-se em tão bom estado de conservação como uso continuado no serviço de bebidas.
Sabemos ainda, que esta peça possui dois paralelos, um proveniente da Herdade do Reguengo, Vaiamonte (Alarcão, 1984, nº1) e o outro da necrópole de Serrones, à guarda do Museu Arqueológico de Vila Viçosa (Alarcão e Alarcão, 1967, nº27). A particularidade que relaciona estes três exemplares é o desenho da asa, encimado por uma espécie de trinco, que pressupõe uma proveniência comum. Como já J. Alarcão havia mencionado: “Não deixa de ser curioso assinalar que estas três peças (as únicas que conhecemos deste tipo em Portugal) provêm de uma região limitada do Alto Alentejo, como se o centro de produção ficasse algures no convento emeritense ou no nordeste do pacense”(Alarcão, 1984, p.173). Não sendo assim, proveniente do centro de produção da cidade de Ammaia, onde foram detectadas evidências claras de produção local de vidro no sector da Porta Sul, tais como restos de fabrico e lascas de vidro bruto, que provam suficientemente a existência desse centro de produção, que ainda Mário Cruz aponta que teria funcionado até finais do séc. IV ou inícios do séc. V.
A peça, bem como as restantes peças em vidro, poderá ser vista no Museu Cidade de Ammaia, na exposição temporária “Ad Aeternitatem – os espólios funerários de Ammaia a partir da colecção Maçãs do Museu Nacional de Arqueologia”, inaugurada em 15 de Maio de 2015 e aqui visitável até Dezembro de 2016.

Publicações:
Alarcão, J. de (1971) “Vidros romanos de Aramenha e Mértola”, O Arqueólogo Português, série III, vol. V, Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, lisboa, p.190-205;
Alarcão, Adilia e Gomes, Mário Varela (1989), “Da Proto-História aos alvores da Idade Média”, In O vidro em Portugal, Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, Lisboa, p. 15-25;
Cruz, Mário da (2009ª) Vitra Vitri. O vidro Antigo em Portugal. Museu Nacional de Arqueologia, Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, Lisboa.
Cruz, Mário da (2015), Espolio funerário de Ammaia. Os vidros. In Catálogo da Exposição “Ad Aeternitatem – Os espólios funerários de Ammaia a partir da Colecção Maçãs do Museu Nacional de Arqueologia. Museu Nacional de Arqueologia, Museu Cidade de Ammaia.

Sofia Borges
Museu Cidade de Ammaia/ Fundação Cidade de Ammaia

12 Meses | 12 Peças

JANEIRO

12 meses 12 peças MUNICIPIUM

Homenagem do município de Ammaia ao imperador Lúcio Vero

Uma das fontes de informação mais sólida sobre a vida pública da cidade de Ammaia é constituída pelas inscrições. Entre elas destaca-se um pequeno monumento, mas de elevada qualidade, que constitui um dos testemunhos mais importantes para a história desta cidade romana da Lusitânia. O seu texto diz o seguinte:

Imp(eratori) Caes(ari) L(ucio) Aure/lio Vero Aug(usto) / divi Antonini f(ilio) / pont(ifici) max(imo) trib(unicia) pot(estate) / co(n)s(uli) II p(atri) p(atriae) / municip(ium) Ammai(ense)

Tradução: O município de Ammaia dedica ao imperador César Lúcio Aurélio Vero Augusto, filho do divino Antonino, com o poder tribunício, pontífice máximo, cônsul pela segunda vez, pai da pátria.

A sua relevância decorre, em primeiro lugar, do facto de esta inscrição corresponder a um acto público datado precisamente de 166 d. C. Nesse ano o município de Ammaia tomou a decisão de homenagear o imperador Lúcio Vero, colocando-lhe uma dedicatória num lugar proeminente da praça pública, o forum – o espaço que representava o centro da vida política da cidade romana. Nele se situava a cúria, o lugar onde reunia a assembleia do município, constituída pelos decuriões, as figuras mais importantes da vida pública de Ammaia. Foram eles certamente que decidiram promover esta iniciativa em nome de toda a comunidade cívica, exprimindo dessa forma a sua conformidade com a cultura romana e uma das suas referências institucionais e ideológicas, a figura do imperador.

O texto identifica Lúcio Vero de forma canónica, como seria de esperar nestas circunstâncias oficiais, através do seu nome e da filiação, referindo neste caso o seu antecessor e pai adoptivo (Antonino Pio), como é habitual nesta dinastia em que a adopção foi de regra. Seguem-se os seus títulos, à cabeça dos quais vem o poder de tribuno, um cargo que constitui a essência do regime e por isso os imperadores o renovam sistematicamente, tendo aqui atingido o seu sétimo ano de exercício, embora sem a correspondente referência. Vem depois a função de pontífice máximo, de natureza religiosa, mas igualmente de profundo significado político, de primeira importância numa sociedade onde estes dois planos necessariamente se misturam. Continua o elenco com a alusão ao facto de ter exercido a magistratura tradicionalmente mais elevada, o consulado, por duas vezes. Termina com a concessão do título honorífico de “pai da pátria”, atribuído precisamente no ano de 166, o que constitui o fundamento para a datação precisa da epígrafe.

Além disso, esta inscrição atesta a condição jurídica de município da cidade de Ammaia, o que representava um privilégio em relação a muitas comunidades do mundo romano. Não se sabe exactamente quando a civitas Ammaiensis (designação atestada numa outra epígrafe) teria recebido esse estatuto municipal, discutindo-se hipóteses que, no caso da proposta mais recuada, se atribuíra essa alteração a uma liberalidade do imperador Cláudio (41-54 d. C.), ao qual a cidade prestou uma homenagem anual. Outros autores, no entanto, situam essa modificação jurídica sob Vespasiano (69-79 d. C.) ou outro princeps posterior.

Por fim, esta epígrafe anda associada com a questão do nome do lugar cujos vestígios se situam em S. Salvador de Aramenha. Conhecido desde o séc. XVI, este monumento encontrava-se na ermida do Espírito Santo, em Portalegre, razão pela qual a tradição não associou o nome de Ammaia a esses restos arqueológicos, preferindo geralmente a correspondência desse lugar com a antiga Medobriga. No entanto, o célebre epigrafista alemão Emílio Hübner tinha já referido que o dito município amaiense deveria situar-se preferivelmente nesse espaço, onde tinham sido identificados muitos outros documentos epigráficos, alguns ostentando nomes de magistrados. A questão só se resolveu definitivamente com o aparecimento nesse lugar de uma outra homenagem imperial, desta vez dedicada a Cláudio, promovida pela civitas Ammaiensis, que J. Leite de Vasconcelos deu a conhecer em 1935.

(Amílcar Guerra, UNIARQ, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa)